quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Um estranho no ninho


por Reynaldo Puebla
Sinto uma grande atração pelo trabalho dos músicos, especialmente os cantores de coro, embora eu não seja músico nem pretenda ser.
Serei sempre um diretor de teatro que adora trabalhar com cantores.
Um dos motivos pelo qual entrei nessa história da Expressão Cênica para Canto Coral é o fascínio que sinto pela força da expressão coletiva no palco.
Minha formação teatral, fez com que eu tivesse um cuidado especial para não romper a harmonia dos aspectos musicais, que considero dos mais complexos.
Fico surpreso ao ver o coro cantar a quatro vozes, sem se perder no andamento, nem desafinar.
Naipes misturados, de pé ou abaixados, dançando e cantando, valorizando cada momento e o todo.
É realmente surpreendente.
A CRIAÇÃO COLETIVA
Gosto de coral por não ser um trabalho solitário.
É a mais completa expressão da Criação Coletiva.
Vozes que comunicam imagens, poesia, emoções, ideais.
O som do homem e da natureza.
Desde o timbre do metal até o som da pele, do grito ao sussurro, da loucura ao medo, do amor até o ódio mais profundo.
Tudo está ali, na expressão do canto.
E também... tudo pode se transformar em cena.
Expressar com a voz, o corpo e as emoções.
CORO CÊNICO X CORO TRADICIONAL
Nem todos gostam do coro que se mexe.
Já está estabelecida a polêmica entre Regentes, cantores e amantes do canto coletivo.
Entretanto, todos os coros que se apresentam SÃO cênicos, pois eles ESTÃO em cena.
O que convencionamos chamar de Coro Cênico, é o trabalho de teatralização de uma música ou de um espetáculo coral.
RELAÇÃO DE CORO E PÚBLICO
O primeiro contato do público com o Coro é visual.
Durante toda a apresentação, o olho curioso do público busca os cantores mais expressivos, assim como também os mais inexpressivos, estabelecendo uma relação estética e artística com o espetáculo.
O CORO EM CENA
A entrada do coral é cênica.
O cumprimento após cada música é cênico.
Esses são cuidados “cênicos” que todo coro deve e pode ter, por respeito ao público e ao seu trabalho artístico. Independente de fazer ou não cenas de interpretação.
O coral pode ser amador, mas o seu trabalho deve estar cercado de cuidados e respeito profissional.
CORPO, VOZ E EMOÇÕES DO CANTOR
O trabalho de preparação não se completa com a boa afinação ou andamento correto, isso é mera obrigação técnica.
A arte consistirá em dar a alma, o caráter, a “cara” de cada música.
É preciso chegar a uma comunhão entre partitura e interpretação cênica/ musical, preparando o corpo, a voz e principalmente as emoções do cantor. ESPETÁCULO CORAL
Pensando no programa como um todo, é preciso pensar, trocar idéias, “viajar” sobre como pode ser o espetáculo e é muito importante a participação de todos.
E então, tocamos no “Se” mágico da criação artística.
Se... nesse trecho colocamos uma cena de amor... Se... criamos um adereço... um figurino...uma poesia...... E assim infinitamente, estamos entrando no mundo maravilhoso do Espetáculo Coral, chamado CORO CÊNICO.
POR QUE CORO CÊNICO?
Porque ele ocupa dramaticamente a cena, dando forma, valor e emoção a toda a expressão musical. Utiliza-se nessa técnica todos os recursos disponíveis no teatro, na dança, no musical e na ópera. E essa é a escolha de cada grupo.
O APLAUSO
O público sempre em sua grande bondade, nos agradece com essa convenção maravilhosa: palmas infinitas.
Isso se dá porque valorizamos para ele, aspectos musicais e visuais, completando no seu inconsciente uma estória que se mistura com suas lembranças e emoções.
Com certeza cada momento desse espetáculo ficará por muito mais tempo em suas recordações.
É dessa maneira que eu acho que vale a pena trabalhar.
Não para fazer um espetáculo bom, e sim um espetáculo inesquecível.
REYNALDO PUEBLA
Diretor de Teatro e Arte Educador

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Como e com quem cheguei

NOMES E LUGARES
Opereta A NOIVA DO CONDUTOR apres. Sesc Vila Mariana

Tive o privilégio de trabalhar com grandes nomes da música coral brasileira.
E de participar dos já lendários Painéis da Funarte,comandados por dona Elza Laskevitch, pelo Brasil todo.
Também, de compartilhar com Samuel Kerr, Marcos Leite, Nelson Matias, Marisa Fonterrada e Benito Juares memoráveis encenações.
Viajar com Marlui Miranda e Coro para a Expo ’98 de Portugal ecom o grupo Beijo, que tive a honra de dirigir seis anos, para a Argentina.
Fui também para Valência, Espanha com o coral da PUC, no FÌCUS, levando sempre minha idéia de um Canto Coral com cenas, expressão e vida.Dirigi em São Leopoldo, os 100 anos da Universidade do Rio dos Sinos com o saudoso José Pedro Boessio e Lúcia Passos.
Trabalhei com excelentes profissionais do Rio de Janeiro no Imperator, com lotação esgotada.Fiz inesquecíveis espetáculos com o Coral Unifesp dirigido por Eduardo Fernandes.
Em Vitória-ES, com o coral da CST e da UFES fiz um espetáculo na praia de Camburi para 15.000 pessoas, misturando orquestra Filarmônica, coros, banda de Congos e ginástica artística, num natal emocionante imaginado por Pâmela Duncan.
Compartilhei Com Mara Campos dois momentos inesquecíveis: na década de oitenta, o espetáculo dos 400 anos da Revolução Francesa e em 2007,duas montagens emocionantes com o Coral Paulistano, no Theatro Municipal de São Paulo, estreando obras de autores nacionais, como queria Mário de Andrade.
Com Sheila Assumpção, no Centro Experimental de Música, no Sesc Consolação, construímos dos momentos de grande musicalidade e ótimas cenas com Antonio Nóbrega e suas cirandas, e Mônica Salmaso, com seu carisma irresistível.
Destaco também, o recente trabalho com Jocelyn Gomes e os cantores do Serasa e com a maestrina Jucélia na Klabin, com quem construímos “Villa Lobos, emoção sonora do Brasil”.
Tenho a honra de ser convidado permanente de Amaury Vieira, no Laboratório Coral de Itajubá, nas montanhas de Minas.
Sei que são tantos os profissionais que deixo de fora que isso pode parecer parcial, mas é uma cachoeira de lembranças.
Talvez as mais próximas e não as mais importantes artisticamente.Sei também que falo somente dos maestros, mas o grande ponto de apoio foi e sempre será a paixão dos cantores,os verdadeiros protagonistas de todos os nossos espetáculos.
Reynaldo Puebla
Diretor de Teatro e Arte Educador

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Eu amo os Atores

Plinio Marcos
Eu amo os atores nas suas alucinantes variações de humor,
nas suas crises de euforia ou depressão.
Amo o ator no desespero de sua insegurança, quando ele,
como viajor solitário, sem a bússola da fé ou da ideologia,
é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente, procurando
no seu mais secreto íntimo afinidades com as distorções de caráter que seu personagem tem.
E amo muito mais o ator quando, depois de tantos martírios,
surge no palco com segurança, emprestando seu corpo,
sua voz, sua alma, sua sensibilidade para expor sem nenhuma
reserva toda a fragilidade do ser humano reprimido, violentado.
Eu amo o ator que se empresta inteiro para expor para a platéia
os aleijões da alma humana, com a única finalidade de que seu
público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um
mundo melhor, que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor.
Eu amo os atores que sabem que a única recompensa que podem
ter – não é o dinheiro, não são os aplausos - é a esperança de poder rir todos os risos e chorar todos os prantos.
Eu amo os atores que sabem que no palco cada palavra e cada gesto são efêmeros e que nada registra nem documenta sua grandeza.
Amo os atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer da técnica mecânica.

Plínio Marcos